Crônicas e Natal

O desastroso presente de Natal

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Já passava das oito horas e eu ainda estava indecisa entre continuar olhando as coisas no meu celular ou levantar pra ver se termino de arrumar a bagunça do dia anterior.

Não que brigar com o namorado seja uma bagunça, quer dizer, o coração fica bagunçado e a vida pode perder um pouco de equilíbrio, mas eu aprendi (depois de todos esses meus relacionamentos) a ter amor próprio e isso ninguém mais me tira.

Ou talvez eu tenha exagerado um pouquinho nessa questão, ele só queria me levar para um restaurante, mas, poxa… era véspera de Natal. Onde foi parar a ceia?  A família reunida? As conversas sobre o futuro? As perguntas dos familiares sobre nosso futuro? Eu sei que talvez possa odiar certas perguntas, mas é sempre bom sentir aquela dúvida e friozinho na barriga com cada resposta que ele poderia dar.

E eu não senti esse frio… tudo o que consegui sentir foi desespero por estar em um lugar lindo e mesmo assim não me sentir linda por estar lá. Quero dizer, eu estava linda, estava toda arrumada, maquiada e depilada, mas eu me sentiria melhor se somente os familiares dele estivessem me admirando, e não todo o pessoal daquele restaurante solitário. Porque sim, todas as mesas possuíam apenas uma pessoa. Uma mesa, entre vários corações partidos que não puderam encarar os familiares nesse dia e que resolveram comemorar a véspera de Natal com muita bebida. Era um pouco deprimente.

E olhando para meu namorado, me perguntei se eu não estaria aqui ano que vem, como eles. Com o coração quebrado e com os olhos vermelhos pela noite mal dormida.

Qual era o sentido desse convite estranho eu não tinha ideia, só sei que ao entrar no local andei apenas 6 passos até parar definitivamente. Olhei para ele e perguntei por que não podíamos ir para sua casa. E sabe o que ele disse? Simplesmente respondeu com um meio sorriso falando que tinha coisas para fazer aqui. Coisas! Coisas que são mais importantes do que o Natal em família e eu. Dá pra acreditar? Eu sei que eu deveria ter entendido, agido de forma pacífica e analisar até onde ele iria com isso e o que queria.

Mas eu realmente não aguentei. Natal sempre foi uma época incrível pra mim. Uma época cheia de amor e carinho. E eu realmente queria amor e carinho. Então já era de se esperar que eu fizesse aquilo. Ele já deveria esperar por isso assim que pensou em me trazer para aquele local justo naquele dia.

Não bati nele.

Não beijei aquela boca linda.

Não encarei ele com admiração.

Nem olhei com ironia e fiz minha cara de desdém.

Simplesmente me virei e saí. Perplexa com a noite e me xingando internamente pelas expectativas que tive o dia inteiro.

Me levantei da cama e fiquei olhando o presente que tinha feito especialmente para ele. Tinha uma carta dentro (eu garanto que ele ia se surpreender com isso) e o presente era bem explosivo, digamos assim. Era como eu me sentia em nosso relacionamento, prestes a explodir de felicidade e amor. A caixa representava isso, os meus sentimentos por ele. Assim que ele abrisse a caixa ela ia se abrir e mostrar tudo o que eu sentia. Todos os sentimentos, amor, gratidão, paz… e no centro dela, desejando um feliz natal. Também acrescentei um panetone no meio, tamparia o feliz natal, mas essa era intenção.

Eu realmente estava orgulhosa pelo o que fiz, demorei muito e fiquei um pouco confusa com os recortes, mas sabia que ele ia amar. Pelo menos era o que eu imaginava até ontem a noite. Agora nem sei mais se estamos juntos. Ele não me ligou essa manhã e estou pensando em comer esse panetone sozinha.

Fiquei admirando o presente e o que continha dentro dele. Pra que amor quando se tem comida? E aquele panetone era de chocolate, o melhor prazer que eu podia ter e que iria me satisfazer hoje. Chocolate.

Quem inventou o panetone de chocolate merece todo o meu amor, e não meu namorado. Ou ex, sei lá. Ele nunca inventou nada, ele não merece meu amor. O inventor do panetone de chocolate sim. E pra representar o meu grande amor por ele, vou comer tudo sozinha, com um pote de sorvete ao lado, porque assim fica mais gostoso.

Ai meu Deus!

Eu já tô parecendo aquela minha tia solteirona que se decepcionou com o amor e agora vive de filmes românticos, com um monte de comida em cima da mesa da sala. Chorando todas noite, porque cada noite para ela representava um pouco da sua ilusão. Talvez eu possa estar exagerando, tudo bem, confesso que estou um pouco. Não sei quantas vezes minha tia se decepcionou, mas a noite do Natal foi minha primeira ilusão e o dia dos namorados será minha próxima e depois a pascoa e… e… ai meu deus. Eu vou virar minha tia! Ser uma colecionadora de filmes tristes a lá Nicholas Sparks…

Toc toc toc

Sem vontade de atender, praticamente rastejei até a porta e dei de cara com meu ex-quase-namorado segurando um anel, ajoelhado e sorrindo sem jeito.

– Mas… o… o que… ??? – Tentei pronunciar algo, mas era difícil mexer a boca.

– Você não me deixou fazer nada ontem a noite… – Ele disse, erguendo a cabeça e sorrindo.

– O… oq… quê? – Eu estava pior do que um gago.

– Calma. Deixa eu falar. Respira. – Mas foi ele quem respirou para falar. – Olha, ontem a noite eu te levei para aquele restaurante com a intenção de te pedir em casamento, mas você não aceitou muito bem a ideia. Eu pensei em te pedir naquela noite porque sei o quanto adora o Natal e seria incrível ter mais um motivo para lembrar do Natal do jeito que você lembra. Nessa sua forma tão inocente de uma criança. Eu…

Ele não parava de falar. Fiquei olhando para suas mãos estendidas e suadas pelo nervosismo.

–  EU NÃO ACREDITO!

Não acredito que quase comi seu presente de Natal.

— Eu sei! Sinto muito. Nunca deixaria você pensar esse tipo de coisa de mim. Fui naquele restaurante com a mais bela das intenções. – Ele se levantou e me abraçou, mas soltou logo que viu a caixa – O que é isso?

Ele estava olhando para o presente aberto em cima da minha cama. O panetone já havia sido tirado do embrulho.

– Era pra ser seu presente de Natal, mas quase comi ele.

Ele me olhou admirado por um minuto e riu.

– Você me surpreende até no dia que eu tenho que te surpreender.

E finalmente me beijou.

Ah! E é claro que depois aceitei me casar com ele. Um cara que acha engraçado o fato de você quase comer seu presente de natal não é de se jogar fora.

Ps: Você pode encontrar o presente citado, clicando aqui.

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